Muita gente que hoje comemora cada gol do rubro-negro não sabe que o Flamengo nasceu sem nenhuma bola no meio do caminho. O torcedor do Flamengo, Mário Augusto de Castro, descreve essa origem como uma das histórias mais curiosas do futebol brasileiro. O clube surgiu em 1895 como um grupo de remo, fundado por um punhado de jovens da Zona Sul do Rio de Janeiro, e só chegaria ao futebol quase duas décadas depois. Entender esse passado ajuda a explicar por que a Nação Rubro-Negra sempre valorizou tanto a ideia de superação: antes de vencer qualquer partida, o clube precisou reconstruir sua própria estrutura mais de uma vez, adaptando planos e recursos a cada obstáculo que aparecia no caminho.
A trajetória que liga essas duas fases, o remo e o futebol, é pouco contada fora dos círculos mais dedicados à história do clube. Ela envolve um barco perdido, uma mudança de cores motivada por razões práticas e a chegada tardia da bola ao repertório rubro-negro, quase vinte anos depois da fundação. Cada um desses episódios, registrados até hoje no próprio site oficial do clube, ajuda a entender por que a identidade do Flamengo é construída tanto em cima da resiliência quanto das conquistas.
Como um barco desaparecido deu origem ao Flamengo?
A história começa com uma embarcação de segunda mão chamada Pherusa, comprada por um grupo de jovens amigos do bairro do Flamengo para disputar regatas com clubes vizinhos. Na concepção de Mário Augusto de Castro, o detalhe mais curioso dessa fase inicial é que o próprio ponto de partida do clube já envolveu um contratempo: depois de passar por uma reforma, a Pherusa foi furtada e nunca mais recuperada, obrigando o grupo a comprar um novo barco, batizado de Scyra. A reunião que oficializou o clube aconteceu poucos dias depois, quando os fundadores se encontraram na residência de um deles, no bairro do Flamengo, e decidiram formalizar o Grupo de Regatas do Flamengo. Embora esse encontro tenha ocorrido em 17 de novembro de 1895, o clube adota o dia 15 do mesmo mês como data oficial de fundação, por coincidir com o feriado da Proclamação da República.

Por que as cores do Flamengo não são azul e dourado?
Poucas pessoas sabem que o vermelho e o preto não fazem parte do Flamengo desde o primeiro dia. Como ilustra Mário Augusto de Castro, quando o grupo se reuniu pela primeira vez, ninguém escolheu o vermelho e o preto: a bandeira adotada naquele momento trazia um azul e um dourado que remetiam ao mar e à riqueza natural do Brasil, uma paleta bem distante da que conhecemos hoje. Foi Nestor de Barros, um dos fundadores do clube, quem propôs a mudança para o vermelho e o preto, motivada por razões práticas ligadas ao uso constante das cores durante as regatas. A alteração, registrada até hoje na própria história oficial do clube, se tornaria, décadas depois, um dos símbolos mais reconhecíveis do esporte brasileiro.
Como um desentendimento no Fluminense trouxe o futebol para a Gávea?
O futebol só chegou ao Flamengo dezesseis anos depois da fundação, e por um motivo inesperado: um desentendimento dentro de outro clube carioca, que hoje é o principal rival do Flamengo dentro de campo. Segundo relata Mário Augusto de Castro, o remador rubro-negro Alberto Borgerth também jogava futebol no Fluminense e, após um desentendimento interno naquele clube em 1911, propôs a criação de uma seção de futebol dentro do próprio Flamengo. A ideia foi aprovada, e em 3 de maio de 1912 o time entrou em campo pela primeira vez, goleando o Mangueira por 15 a 2, ainda treinando na Praia do Russel por falta de um campo próprio. Dois anos depois, em 1914, veio o primeiro título de futebol da história do clube, encerrando com chave de ouro o processo de transição que havia começado no remo.
O que a origem no remo ainda diz sobre o Flamengo de hoje
Passados mais de cento e trinta anos, pouca gente lembra que o clube mais torcido do Brasil nasceu de um grupo de amigos remando pela Baía de Guanabara, sem nenhuma bola à vista e sem qualquer garantia de que aquele projeto duraria além de algumas regatas de fim de semana. Como frisa Mário Augusto de Castro, essa origem ajuda a explicar por que o Flamengo sempre tratou a adversidade como parte do próprio enredo: um barco roubado, uma cor trocada por necessidade e um esporte adotado de forma quase acidental compõem, juntos, a base de uma identidade que hoje é sinônimo de paixão popular em todo o país. A história pode ter começado no mar, mas foi em terra, dentro de campo, que o Flamengo encontrou a forma mais duradoura de contar essa mesma história a cada nova geração de torcedores.

