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domingo, abril 18, 2021

Não é com a vacinação que o mundo se tornará menos desigual

Produzir vacinas custa caro. Produzir as vacinas mais eficientes custa ainda mais caro. Adquirir, distribuir e aplicar essas vacinas de maior eficiência exigem gastos muito maiores. Ou seja, quanto menos recursos tem um país, menor e mais demorado será seu acesso às vacinas mais eficientes ou mesmo a qualquer tipo de vacina.

Não há nenhuma razão até agora para acreditar que dará certo a iniciativa da OMS batizada de Covax – um consórcio de 165 países que financiaria a distribuição de dois bilhões de doses de vacinas para as nações mais pobres. Aquela perspectiva de que uma crise sanitária mundial despertaria uma onda de solidariedade capaz de contribuir para a criação de um mundo menos desigual vai provavelmente ser arquivada até a próxima grande ameaça.

A pandemia vem sendo uma oportunidade para que muitos, possivelmente a maioria, revelem ainda mais explicitamente seu egoísmo, no plano individual, ou sua xenofobia, no universo do relacionamento entre países. Em pronunciamento feito ontem, o diretor-geral da entidade, Tedros Adhanom, advertiu que o mundo está à beira de um “catastrófico fracasso moral”, como registrou toda a mídia mundial.

Países ricos e laboratórios estão promovendo uma guerra de preços para garantir lucros e vacinação de suas populações, conforme apontou Adhanom, lembrando que é inadmissível a imunização de jovens saudáveis em determinados lugares enquanto idosos, profissionais de saúde e vítimas de várias doenças atingidos pela pobreza não podem ser vacinados. Nas contas da OMS, até ontem, tinham sido aplicadas 39 milhões de doses de vacinas – só 25 unidades em países de menor renda.

O caso brasileiro demonstra que também aqui há e haverá situações complexas na questão da distribuição equitativa das vacinas. O primeiro problema está de pé na questão da compra de vacinas da AstraZeneca produzidas sob licença na Índia, pelo laboratório Serum. Como pode ter havido um protocolo de testes que permitiu que voluntários fossem recrutados no país estudos fossem conduzidos por uma fundação nacional sem que estivesse garantida a reserva de uma quantidade considerável de vacinas para o período posterior? Ninguém pensou no risco de a Índia pretender vacinar primeiro os próprios indianos mais vulneráveis?

O gesto marqueteiro do governador João Dória tem alguma semelhança com isso, em outro nível. Não porque determinou o uso imediato de doses da Coronavac antes que outros estados tivessem acesso ao imunizante – afinal, o medicamento estava aqui; quanto antes começasse a ser usado, melhor -, mas sim por realizar uma cerimônia, com choro e discurso, que pretendeu apenas provocar o governo federal e reafirmar sua meta de disputar a Presidência daqui a dois anos. Não há limite para o quanto a política pode espetaculizar as piores tragédias.

Pode-se também temer antecipadamente notícias ruins quanto à administração de vacinas em regiões remotas do país e nas áreas em que autoridades políticas e sanitárias comungam das convicções de Jair Bolsonaro, por exemplo, que já recomendou a recusa à imunização diversas vezes.

Neste mundo que já assistiu ao fechamento de fronteiras em nome da contenção do vírus, os próximos capítulos da novela da pandemia tendem a combinar medidas do mesmo tipo com novas barreiras contra a imigração. Como os países pobres estarão no fim da fila de vacinação e sujeitos a aceitar imunizantes menos eficientes e mais baratos, cujos custos de distribuição e aplicação são menores, até a possibilidade de conduzirem algum tipo de retomada econômica pós-vacinação atrasará, como uma sentença que os condena a empobrecer ainda mais.

“O preço do fracasso será pago com vidas e perda de meios de subsistência nos países mais pobres”, é a conclusão do diretor da OMS.

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