Planos de saúde têm dívidas de R$ 2,3 bi com hospitais privados do país, diz associação do setor

Vinicius Lobato
Por Vinicius Lobato
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A crise enfrentada pelos planos de saúde ganhou mais um capítulo, com o atraso de repasses das operadoras para os hospitais. Última pesquisa da Anahp (Associação Nacional de Hospitais Privados), entre 28 de agosto e 2 de setembro com 48 hospitais associados, revelou que os atrasos de pagamentos por parte das operadoras de planos de saúde já somam cerca de R$ 2,3 bilhões.

O montante representa cerca de 16% da receita bruta do grupo de hospitais, que foi de R$ 14,6 bilhões, e contempla atendimentos realizados entre janeiro e julho deste ano na emergência, realização exames ou pedido por internação.

Ainda conforme o levantamento, o índice de cobranças realizadas pelos hospitais que foram glosadas pelas operadoras, sem razões técnicas para a utilização da medida, também aumentou. O valor de glosas em aberto foi de R$ 1,29 bilhão, que responde a 9% da receita bruta dos respondentes contra um padrão histórico de 3,5%.

Antônio Britto, diretor-executivo da Anahp, comenta que houve aumento na demora do prazo de recebimento das faturas dos hospitais, que vinha em uma média de 70 dias e passou para 120.

“O trâmite todo vem ficando cada dia mais burocrático e com mais entraves que dificultam, inclusive, a cobrança pelo pagamento dos serviços prestados. O paciente chega ao hospital, é atendido, recebe todos os cuidados necessários e aí os prestadores não conseguem rever esse valor investido no atendimento”, diz o executivo.

Ainda de acordo com Britto, é importante observar que esta situação não atinge apenas membros da Anahp, mas trata-se de um problema enfrentado por todos os quase 4 mil hospitais privados e filantrópicos brasileiros, bem como os milhares de prestadores de serviços, como clínicas e laboratórios de diagnósticos.

“Reconhecemos as dificuldades das operadoras, mas é indispensável que todos entendam: nós estamos enfrentando uma crise estrutural e a solução do problema só virá a partir do momento que o setor trabalhar de forma conjunta, no entendimento de que uma saúde suplementar saudável só é possível com a sustentabilidade de todos os players“, explica o diretor-executivo da Anahp.

Resultados
No primeiro semestre deste ano, os planos de saúde registraram lucro líquido de R$ 2 bilhões, segundo dados da ANS (Agência Nacional de Saúde Suplementar). De acordo com a agência, o resultado equivale a aproximadamente 1,3% da receita total acumulada no período, que foi de quase R$ 154 bilhões. Para cada R$ 100 de receita no 1º semestre de 2023, o setor auferiu cerca de R$ 1,3 de lucro.

No primeiro semestre, a sinistralidade fechou em 87,9% (cerca de 0,9% p.p. abaixo da apurada no mesmo período do ano anterior). De acordo com a ANS, o resultado foi fortemente impulsionado por algumas das maiores operadoras do país e ilustra que praticamente 88% das receitas advindas das mensalidades são “consumidas” com as despesas assistenciais.

“Estamos vendo que a rentabilidade das operadoras está vindo, de maneira geral, do rendimento das operações financeiras. Essa situação não é desejável, afinal, a operação de plano deve ser sustentável por si só. As operadoras, então, precisam rever sua gestão e analisar onde podem melhorar. É muito importante ter um estudo de atuária mais prospectivo, com análise de cenários e dos impactos possíveis”, analisa Jorge Aquino, diretor de Normas e Habilitação das Operadoras.

Outro lado
A Abramge (Associação Brasileira de Planos de Saúde), por meio da sua assessoria de imprensa, reforçou a importância dos planos de saúde no país e o empenho das operadoras para atender as necessidades dos beneficiários diante dos prejuízos operacionais.

De acordo com a nota, as operadoras registraram em 2022 prejuízo operacional de R$ 10,7 bilhões. Trata-se do pior resultado desde o início da série histórica, em 2001.

“De janeiro a junho de 2023, a conta já está negativada em R$ 4,3 bilhões, e a perspectiva é que, até o fim deste ano, o valor continur crescendo. Isso ocorre, em muita parte, pelos impactos significativos decorrentes de diversas fraudes, incluindo empréstimos e falsificação de carteirinhas, uso indevido para procedimentos estéticos, reembolsos de consultas duplicados e fraudulentos, além de materiais superfaturados”, diz a entidade.

Por este motivo, foi estabelecida uma análise mais ampla dos serviços já prestados por parte das operadoras de saúde. Porém, todos os atendimentos que aconteceram, estão provisionados.

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