Cúpula reúne países do bloco em meio à guerra no Oriente Médio e testa a capacidade do BRICS de ampliar sua influência global sem perder coesão.
A cúpula do BRICS em Nova Délhi, marcada para 12 e 13 de setembro, ocorre em um momento de forte tensão internacional e coloca o Brasil diante de uma questão estratégica: até onde o bloco consegue ampliar sua influência econômica e diplomática sem se transformar em uma aliança marcada pelas divergências internas? A reunião acontece sob a presidência da Índia e reúne um grupo que passou por uma grande expansão nos últimos anos. Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul, Egito, Etiópia, Irã, Emirados Árabes Unidos e Indonésia estão entre os integrantes, aumentando o peso demográfico e econômico do agrupamento. O encontro ganha importância adicional porque a guerra envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã criou posições divergentes entre integrantes do próprio BRICS, especialmente entre Irã e Emirados Árabes Unidos. Para o Brasil, o resultado poderá influenciar negociações comerciais, relações com grandes potências e a estratégia de diversificação das exportações.
Fonte: Ministério de Minas e Energia; Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC); governo da Índia.
Por que a cúpula do BRICS acontece em um momento tão delicado
O BRICS chega à reunião de Nova Délhi maior do que era quando o Brasil presidiu o grupo em 2025, mas também mais heterogêneo. A ampliação incorporou Egito, Etiópia, Irã, Emirados Árabes Unidos e Indonésia como membros, criando um espaço que reúne países com interesses econômicos, políticos e estratégicos bastante diferentes. O próprio governo brasileiro descreve o agrupamento como um foro de articulação político-diplomática e cooperação em diversas áreas, e não como uma aliança militar ou uma estrutura supranacional. Essa característica explica tanto a força do BRICS quanto uma de suas principais limitações: decisões relevantes dependem da capacidade de encontrar posições aceitáveis para governos que nem sempre compartilham as mesmas prioridades.
A guerra no Oriente Médio tornou esse problema mais evidente. De acordo com informações divulgadas pela Reuters em 10 de setembro, a reunião de Nova Délhi ocorrerá enquanto o conflito entre Estados Unidos, Israel e Irã afeta o comércio de petróleo e aumenta as divergências entre membros do bloco. Os Emirados Árabes Unidos, atingidos por ataques iranianos, adotaram medidas de restrição em relação a Teerã, enquanto o Irã busca apoio diplomático diante da ofensiva militar. Para a presidência indiana, conseguir uma linguagem comum sobre o conflito será um teste político importante, porque uma declaração muito favorável a um dos lados poderia dificultar o consenso dentro do próprio grupo.
O desafio interessa diretamente ao Brasil porque a diplomacia brasileira tradicionalmente utiliza fóruns multilaterais para defender negociações, solução diplomática de conflitos e maior participação dos países emergentes nas decisões internacionais. A Declaração do Rio de Janeiro, aprovada durante a presidência brasileira do BRICS em 2025, registrou apoio à Índia para conduzir a presidência de 2026 e realizar a XVIII Cúpula do grupo. O encontro, portanto, representa também uma continuidade da estratégia brasileira de preservar o BRICS como espaço de diálogo entre diferentes polos de poder, em vez de transformá-lo simplesmente em um instrumento de confronto com Estados Unidos e Europa.
Fontes: Reuters, Ministério de Minas e Energia e Declaração do Rio de Janeiro do BRICS.
O que o Brasil pode ganhar com um BRICS mais forte
O principal interesse brasileiro no BRICS não está apenas na diplomacia, mas também na possibilidade de ampliar mercados, investimentos e fontes de financiamento. A aproximação recente entre Brasil e Índia mostra esse potencial. Segundo o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, a corrente de comércio entre os dois países alcançou US$ 10,1 bilhões nos primeiros sete meses de 2026, crescimento de 32,9% em relação ao mesmo período anterior. As exportações brasileiras para a Índia chegaram a US$ 5,89 bilhões no período, alta de 82,1%, mostrando que a relação bilateral pode oferecer alternativas para empresas brasileiras que buscam reduzir a dependência de determinados mercados.
A Índia também está no centro da atual presidência do BRICS, o que torna a aproximação bilateral especialmente relevante para o Brasil. Em agosto, os dois países avançaram em discussões sobre acesso a mercados, barreiras comerciais, investimentos e ampliação do Acordo de Comércio Preferencial entre Mercosul e Índia. O governo brasileiro também destacou oportunidades para pequenas e médias empresas, além de novas possibilidades de diversificação das exportações. Esse movimento mostra que a política externa pode produzir efeitos concretos para setores produtivos, especialmente quando negociações diplomáticas são acompanhadas de acordos comerciais e instrumentos de facilitação de investimentos.
Outro ponto importante é o Novo Banco de Desenvolvimento, conhecido como Banco do BRICS. Em agosto, o governo brasileiro apresentou ao banco projetos de infraestrutura em busca de novas fontes de financiamento, mostrando que a instituição pode ter papel relevante para obras públicas e investimentos privados. O banco oferece instrumentos como empréstimos, garantias e participação acionária, o que amplia as alternativas disponíveis para projetos que dependem de capital de longo prazo. Para o Brasil, isso pode ser particularmente importante em infraestrutura, logística, energia e outros setores nos quais investimentos elevados precisam de financiamento por períodos prolongados.
O fortalecimento do BRICS, entretanto, não significa que o Brasil deva abandonar suas relações comerciais com Estados Unidos, União Europeia ou outros parceiros. A estratégia de diversificação funciona justamente quando o país amplia opções sem substituir automaticamente um mercado por outro. A posição brasileira poderá ser mais vantajosa se conseguir utilizar o BRICS para abrir mercados e atrair investimentos enquanto preserva relações econômicas com diferentes centros de poder.
Fontes: MDIC, Ministério de Portos e Aeroportos e Ministério de Minas e Energia.
BRICS pode mudar a posição do Brasil no mundo?
A questão mais importante após a cúpula será saber se o BRICS conseguirá transformar seu peso econômico e demográfico em influência política coordenada. O grupo reúne países que representam uma parcela expressiva da população mundial e possui grandes produtores de energia, alimentos, minerais e bens industriais. Ao mesmo tempo, existem diferenças profundas entre seus integrantes em relação a política externa, segurança, comércio, sanções internacionais e relações com Washington. Quanto maior o número de membros, maior é o potencial econômico do grupo, mas também mais difícil pode ser construir consensos sobre temas sensíveis.
Para o Brasil, essa equação exige equilíbrio. Uma aproximação excessivamente alinhada a qualquer potência poderia reduzir a margem de manobra tradicional da diplomacia brasileira, enquanto uma postura muito distante das grandes economias emergentes poderia desperdiçar oportunidades comerciais e financeiras. O caminho mais pragmático tende a ser utilizar o BRICS como uma plataforma adicional de negociação, cooperação e representação dos países emergentes. Nesse cenário, o interesse brasileiro está menos em criar um bloco contra alguém e mais em aumentar sua capacidade de negociação diante de diferentes centros de poder.
A cúpula também poderá influenciar discussões sobre pagamentos internacionais, financiamento, comércio e uso de moedas nacionais nas transações. Essas propostas ganharam espaço dentro do BRICS justamente porque alguns integrantes desejam reduzir vulnerabilidades relacionadas ao sistema financeiro internacional dominado pelo dólar. Isso não significa que uma substituição imediata do dólar esteja próxima, já que existem diferenças econômicas e financeiras entre os países e obstáculos técnicos para criar mecanismos alternativos em grande escala. Ainda assim, o avanço gradual de sistemas de pagamentos e instrumentos financeiros próprios pode alterar a forma como determinados negócios entre os membros são realizados.
Para o brasileiro comum, os efeitos não aparecerão necessariamente no dia seguinte à reunião de Nova Délhi. Eles podem surgir gradualmente por meio de novos mercados para produtos nacionais, investimentos em infraestrutura, acordos tecnológicos, oportunidades para empresas e mudanças no ambiente internacional de comércio. O resultado mais importante será, portanto, menos uma decisão isolada e mais a capacidade do Brasil de transformar sua participação no BRICS em benefícios econômicos concretos sem comprometer relações com outros parceiros. A cúpula de 2026 será um teste para essa estratégia e para a própria capacidade do grupo de atuar em um mundo cada vez mais fragmentado.
Fontes: governo brasileiro, MDIC, Ministério de Minas e Energia e informações sobre a XVIII Cúpula do BRICS em Nova Délhi.
Fontes verificáveis e clicáveis utilizadas na matéria:
- MDIC — Brasil e Índia avançam para ampliar comércio e investimentos
- Ministério de Minas e Energia — BRICS
- Governo brasileiro — Declaração do Rio de Janeiro do BRICS
- Ministério de Portos e Aeroportos — Brasil apresenta projetos ao Banco do BRICS
- Reuters — Índia sedia cúpula do BRICS enquanto guerra com Irã testa unidade do bloco

