A demanda por grãos com certificação orgânica cresce num ritmo mais acelerado do que a oferta certificada disponível no país, e essa lacuna está abrindo espaço para negociações bem diferentes das praticadas no mercado convencional de commodities. O empresário Wander Aguilera Almeida acompanha esse movimento de perto, sobretudo entre produtores que avaliam migrar parte da propriedade para esse tipo de produção mais especializada.
Poucos entendem, de fato, o que esse selo representa além do rótulo estampado na embalagem, e quais mudanças reais ele traz para quem decide seguir por esse caminho de conversão produtiva ao longo de vários anos.
Por que a certificação orgânica virou vantagem competitiva?
O selo orgânico funciona como uma garantia formal, verificada por auditoria externa periódica, de que a produção segue um conjunto específico de práticas sem determinados insumos químicos convencionais utilizados na lavoura tradicional. Wander Aguilera Almeida aponta que essa garantia costuma se traduzir em preços diferenciados pagos pelo comprador, justamente porque o processo de verificação reduz a incerteza sobre a origem do produto entregue ao consumidor final.
Consumidores e indústrias dispostos a pagar mais por essa garantia formam um mercado ainda pequeno dentro do agronegócio nacional, mas com crescimento constante ano após ano, especialmente em segmentos voltados à exportação e a nichos de consumo mais exigentes dentro do próprio território brasileiro.
O que exige para transformar a lavoura em produção certificada?
A conversão de uma propriedade convencional para produção orgânica não acontece da noite para o dia, exigindo planejamento cuidadoso desde a primeira etapa. Existe um período de transição, durante o qual a lavoura já segue as práticas exigidas pela certificação, mas ainda não pode comercializar a produção com o selo formalizado, exigindo paciência financeira considerável do produtor envolvido.
Segundo Wander Aguilera Almeida, esse período tende a ser o momento mais desafiador de toda a conversão: o produtor arca com custos mais altos de manejo, sem ainda receber o prêmio de preço que a certificação costuma proporcionar depois de concluído o processo completo junto ao órgão certificador competente.
Como esse selo muda o comprador disposto a negociar?
Compradores de grãos orgânicos geralmente são diferentes dos compradores tradicionais, muitas vezes ligados a nichos específicos da indústria alimentícia ou a mercados de exportação com exigências mais rígidas de rastreabilidade e documentação completa. Esse perfil distinto, como revela o empresário Wander Aguilera Almeida, muda o formato da negociação em si: menos volume, mas com relações comerciais mais próximas e contratos de prazo mais longo.

Essa proximidade também exige do produtor mais transparência documental em cada etapa da cadeia, já que qualquer inconsistência entre o que foi certificado e o que efetivamente chega ao comprador pode comprometer não apenas aquele negócio pontual, mas toda a credibilidade da certificação obtida com tanto esforço ao longo dos anos.
O que ainda limita a expansão desse mercado no Brasil?
Apesar do crescimento observado nos últimos anos, a certificação orgânica ainda enfrenta obstáculos estruturais relevantes dentro do agronegócio nacional. Nesse sentido, Wander Aguilera Almeida comenta que o custo da auditoria, somado à documentação exigida ao longo de todo o processo de conversão, afasta muitos pequenos produtores que teriam condições técnicas de produzir dentro das exigências, mas não têm capital disponível para arcar com essa transição inicial demorada.
Alternativas como a certificação participativa, baseada em fiscalização coletiva entre produtores vizinhos da mesma região, vêm ganhando espaço justamente para reduzir essa barreira de entrada, embora ainda tenham reconhecimento comercial mais limitado do que a certificação por auditoria tradicional, mais aceita em grandes mercados exportadores.
Por que a proximidade com lavouras convencionais importa?
Manter a integridade da certificação exige mais do que mudar as práticas dentro da própria propriedade: a contaminação vinda de talhões vizinhos, seja por deriva de defensivos ou por sementes carregadas pelo vento, pode comprometer o processo inteiro. Wander Aguilera Almeida informa que zonas de proteção, geralmente uma faixa de distância mínima entre a lavoura orgânica e áreas convencionais próximas, fazem parte das exigências avaliadas em cada auditoria.
Negociar essa convivência com vizinhos, ajustando calendários de aplicação ou combinando faixas de proteção conjuntas, costuma evitar conflitos que só aparecem depois que a certificação já foi obtida e algum resíduo inesperado é encontrado numa análise de rotina, colocando todo o esforço anterior em risco.
O que essa tendência sugere para quem está decidindo migrar?
Entrar na produção orgânica sem entender completamente o período de transição, os custos envolvidos e o perfil de comprador que essa produção atrai é um dos erros mais comuns entre quem se anima com o prêmio de preço sem calcular todo o caminho até chegar lá com segurança financeira.
Por fim, avaliar essa mudança com dados concretos sobre custo, prazo e mercado comprador disponível na própria região, em vez de decidir apenas pela expectativa de preço mais alto, é o que diferencia uma conversão bem-sucedida de uma decisão tomada sem o devido planejamento prévio.

