Márcio André Savi destaca que grande parte da infraestrutura de saneamento em operação no Brasil foi projetada com base em séries históricas de chuva e de vazão, que não refletem com precisão o clima atual. Em períodos de temporais intensos, estiagens prolongadas e inundações recorrentes, as redes e estações operam em condições para as quais não foram dimensionadas.
As enchentes que atingiram o estado do Rio Grande do Sul em 2024 tornaram esse risco visível. Em consequência, estações de tratamento e de bombeamento ficaram submersas, o abastecimento de água foi interrompido em diversas cidades e a retomada dos serviços dependeu de reparos emergenciais. Diante disso, foi exposta a vulnerabilidade de estruturas essenciais diante de eventos extremos.
A preparação do saneamento para esse novo contexto requer a identificação das fragilidades, a definição das medidas de engenharia que aumentam a resiliência e a articulação do planejamento para a incorporação permanente do risco climático. Os tópicos a seguir percorrem esses pontos.
Os impactos dos eventos extremos nos sistemas de água e esgoto
As inundações afetam diretamente as instalações localizadas em áreas baixas, como estações de tratamento de esgoto e estações elevatórias, que geralmente são construídas próximas a rios com o propósito de facilitar o lançamento do efluente tratado. Em caso de invasão de água em painéis elétricos, bombas e reatores, o sistema pode ficar inoperante por um período de até semanas.
Nas redes, chuvas intensas sobrecarregam tubulações e favorecem a entrada de água pluvial no sistema de esgoto, seja por ligações irregulares, seja por falhas nas juntas e nos poços de visita. O resultado do não cumprimento da legislação ambiental é o extravasamento de esgoto em vias públicas e córregos, com riscos à saúde e à qualidade dos corpos d’água.
A estiagem produz um efeito inverso, porém igualmente grave. A redução do volume dos mananciais compromete a captação, eleva a concentração de poluentes na água bruta e exige um tratamento mais robusto. Como explica Márcio André Savi, em cenários de escassez hídrica, os sistemas com elevadas perdas na distribuição são os mais impactados, pois desperdiçam uma água que se torna cada vez mais escassa.
Medidas de engenharia que aumentam a resiliência
A primeira medida a ser tomada é a proteção das instalações mais vulneráveis. A elevação de equipamentos elétricos acima das cotas de inundação, a construção de diques de proteção, a vedação de estruturas e a realocação de componentes críticos reduzem o tempo de paralisação em caso de cheia, permitindo que o serviço seja retomado com mais rapidez.

A redundância permite que o atendimento seja mantido mesmo com falhas na estrutura. Isso é possível com geradores, interligação de sistemas e diversificação de mananciais. Na ótica de Márcio André Savi, a capacidade de operar de forma parcial durante períodos de crise constitui um diferencial fundamental entre um sistema resiliente e um sistema meramente robusto.
Nas redes, a separação efetiva entre drenagem e esgoto, bem como o combate às ligações irregulares, reduzem a sobrecarga durante os períodos chuvosos. A implementação de reservatórios de detenção, soluções de drenagem que favorecem a infiltração da água no solo, além da manutenção preventiva das galerias, também contribuiu para reduzir os picos de vazão que chegam às tubulações.
A utilização de água em usos não potáveis, como a limpeza urbana e processos industriais, além do reúso de efluentes tratados, pode aliviar a pressão sobre os mananciais. Márcio André Savi pontua que tais medidas apresentam um efeito duplo, pois melhoram a eficiência operacional no dia a dia e ampliam a margem de segurança nos momentos de crise.
Planejamento que incorpora o risco climático
A implementação de uma obra isolada não é suficiente para solucionar o problema, caso o planejamento continue fundamentado em premissas obsoletas. Os planos de saneamento devem considerar cenários de chuva e estiagem mais severos, mapear as instalações em áreas de risco e definir prioridades de adaptação conforme a importância de cada estrutura para o sistema.
Nesse contexto, o monitoramento em tempo real adquire especial importância. A instalação de sensores de nível em rios e reservatórios, a medição de vazão nas redes e a integração com sistemas de alerta meteorológico permitem antecipar decisões, como o desligamento preventivo de equipamentos ou a mobilização de equipes antes que a situação se agrave.
Os planos de contingência complementam esse conjunto. Ao analisar a resposta a eventos extremos, o engenheiro civil Márcio André Savi aponta que procedimentos definidos antecipadamente, um inventário de componentes críticos e a colaboração entre prestadores, defesa civil e autoridades públicas reduzem o tempo de interrupção e o impacto para a população.
Adaptação como parte do custo da infraestrutura
Por último, é imperativo investir em resiliência, o que significa compreender que o clima já não é uma variável estável no projeto de engenharia. A proteção de instalações, a criação de redundâncias e a revisão de parâmetros de dimensionamento, embora aumentem o custo inicial, evitam perdas muito maiores quando o evento extremo acontece.
Sob a perspectiva de Márcio André Savi, a adaptação climática do saneamento não deve ser tratada como uma resposta pontual a cada desastre. Dada a sua incorporação ao planejamento, à regulação e às metas de universalização, é garantido que as redes e estações construídas atualmente continuem funcionando diante das condições que o futuro deve trazer.

