Com base na leitura da psicanalista Taiza Tosatt Eleoterio, um dos sentimentos mais recorrentes entre mulheres em relacionamentos abusivos é a culpa por supostamente terem “provocado” a reação do parceiro. Essa crença faz parecer que uma fala, uma atitude ou uma decisão justificaria o comportamento agressivo que veio depois, o que desloca a responsabilidade de quem agride para quem sofre. Embora compreensível diante da dinâmica vivida, ela reforça a permanência no ciclo de abuso. Reconhecer de onde vem essa culpa ajuda a mulher a deixar de carregar sozinha uma responsabilidade que nunca foi dela.
De onde vem essa sensação de responsabilidade?
Em muitos relacionamentos abusivos, o próprio parceiro reforça, direta ou indiretamente, a ideia de que suas reações agressivas são consequência do comportamento da outra pessoa, utilizando frases como “você me tirou do controle” ou “se você não tivesse feito isso, eu não teria reagido assim”. Com o tempo, essa narrativa repetida tende a ser internalizada pela mulher, que passa a acreditar, genuinamente, que tem parcela de responsabilidade sobre a violência sofrida.
Conforme explica Taiza Tosatt Eleoterio, essa inversão de responsabilidade é uma das estratégias mais eficazes de manutenção do controle dentro de uma relação abusiva, justamente porque transfere o peso da agressão para quem a sofre, e não para quem a pratica.
A diferença entre desencadear uma reação e ser responsável por ela
Toda interação entre duas pessoas envolve, de alguma forma, estímulos e reações. O que diferencia uma dinâmica saudável de uma abusiva não é a existência de desentendimentos, mas a forma como cada parte lida com as próprias emoções diante deles. Nenhuma fala, decisão ou comportamento de um parceiro justifica uma resposta agressiva por parte do outro.
Como ressalta Taiza Tosatt Eleoterio, agir com agressividade é sempre uma escolha, ainda que impulsiva, de quem comete a agressão, e não uma consequência inevitável do comportamento de quem a recebe.
O papel da culpa na manutenção do ciclo abusivo
Como consequência dessa crença, muitas mulheres passam a monitorar excessivamente o próprio comportamento, tentando prever e evitar qualquer atitude que possa, supostamente, desencadear uma nova reação agressiva. Esse tipo de vigilância constante sobre si mesma tende a gerar um desgaste emocional significativo, além de reforçar a sensação de que a segurança dentro da própria casa depende exclusivamente do próprio comportamento.
Taiza Tosatt Eleoterio avalia que essa vigilância constante, paradoxalmente, raramente garante segurança real, já que a agressividade de um parceiro abusivo tende a se manifestar independentemente do esforço da outra pessoa em evitá-la.
Como começar a desconstruir essa culpa?
Desconstruir essa crença costuma exigir um processo gradual de reconhecimento de que a responsabilidade por um comportamento agressivo pertence exclusivamente a quem o pratica. Isso não significa ignorar que desentendimentos fazem parte de qualquer relação, mas sim compreender que a forma de reagir a eles é uma escolha individual de cada pessoa envolvida.
Taiza Tosatt Eleoterio considera que buscar apoio psicológico especializado costuma ser especialmente útil nesse processo, já que o acompanhamento profissional ajuda a reorganizar essa narrativa internalizada ao longo de anos de convivência com esse tipo de dinâmica.
Sinais de que essa culpa ainda está presente
Alguns sinais indicam que esse padrão de culpa ainda está enraizado. A tendência de revisar mentalmente, repetidas vezes, o que poderia ter sido dito ou feito de forma diferente antes de um episódio de conflito é um deles, assim como a dificuldade de expressar discordâncias por medo de desencadear uma reação agressiva. Também aparecem com frequência a sensação recorrente de estar “andando sobre cascas de ovo” dentro da própria casa e o hábito de se desculpar preventivamente por assuntos que ainda nem foram discutidos.
O impacto dessa culpa também sobre os filhos
Quando há filhos presentes nesse ambiente, a culpa internalizada pela mãe pode, sem intenção, ser transmitida também para eles, especialmente quando a criança percebe que a tensão em casa parece estar relacionada a comportamentos específicos de quem cuida dela. Nesses casos, é comum que a criança também desenvolva uma espécie de vigilância precoce sobre o próprio comportamento, temendo desencadear conflitos entre os adultos.
Romper esse ciclo de culpa, mesmo que de forma gradual, beneficia não apenas a mulher diretamente envolvida na relação, mas também a forma como os filhos aprendem a compreender responsabilidade, conflito e afeto dentro do próprio ambiente familiar. Esse aprendizado precoce sobre como lidar com conflitos tende a acompanhar a criança por muitos anos, inclusive em suas próprias relações futuras, o que reforça a importância de interromper esse padrão o quanto antes for possível.
Reconstruindo a responsabilidade emocional
Diante desse panorama, Taiza Tosatt Eleoterio reforça que reconhecer que a responsabilidade pela agressão nunca pertenceu a quem a sofreu é um dos passos mais importantes da reconstrução emocional, pois permite que a mulher lide com as próprias decisões sem o peso de uma culpa que não era dela.
Esse reposicionamento é gradual e se fortalece quando a mulher encontra espaços seguros para ser ouvida sem julgamento, como uma rede de apoio comunitário ou o acolhimento de profissionais da área. Aos poucos, a autoestima deixa de depender da aprovação de quem agrediu, e as decisões passam a ser guiadas pela própria vontade. Esse movimento também é uma forma de empoderamento feminino, pois devolve à mulher a autoria da própria história.

